Nós, Rizoma!

RizomaMuitas plantas, como o gengibre e o bambu, apresentam caules subterrâneos que têm, basicamente, duas funções: servir como reserva de alimento e como mecanismo de reprodução assexuada. Tais caules são denominados pelos botânicos de “rizomas”. De um ponto do rizoma podem brotar folhas e raízes e desenvolver-se uma nova planta, ligada à primeira. Após algum tempo, resulta uma verdadeira rede de indivíduos interligados, que formam ao mesmo tempo um organismo único. Cada indivíduo faz parte do organismo, mas, ao mesmo tempo, tem existência autônoma.

O rizoma foi utilizado por Gilles Deleuze e Félix Guattari como modelo epistemológico e descritivo (Rhizome, 1976) – um de seus “mil platôs”. Assim, escrevem Deleuze e Guattari: “Contra os sistemas centrados (e mesmo policentrados), de comunicação hierárquica e ligações preestabelecidas, o rizoma é um sistema a-centrado não hierárquico e não significante, sem General, sem memória organizadora ou autômato central, unicamente definido por uma circulação de estados.”

GrafoA condição deste tipo de sistema é a complexidade, em que não há um decalque, uma cópia de uma ordem central, mas sim múltiplas conexões que são estabelecidas e restabelecidas a todo o momento, num fluxo constante de desterritorialização e reterritorialização, compondo “redes de autômatos finitos, nos quais a comunicação se faz de um vizinho a um vizinho qualquer, onde as hastes ou canais não preexistem, nos quais os indivíduos são todos intercambiáveis, se definem somente por um estado a tal momento, de tal maneira que as operações locais se coordenam e o resultado final global se sincroniza independente de uma instância central.” Uma estrutura do tipo rizoma privilegia os meios, os intervalos, as ervas daninhas que crescem entre as plantações tão cartesianamente (e anti-ecologicamente) organizadas. “Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo.”

Ao contrário da “gramatologia” de Jacques Derrida ou da “esquizo-análise” dos próprios Deleuze e Guattari, este modelo não se apresenta como uma conceitualização gratuita; pelo contrário, encontra sólido embasamento no mundo real (o que, ironicamente, não deveria ser do agrado dos pós-modernistas/pós-estruturalistas, para os quais a realidade objetiva “não existe”).  O modelo do rizoma tem, com efeito, encontrado aplicações práticas e teóricas em muitos  campos do conhecimento científico, particularmente através da teoria dos grafos, que oferece um poderoso arcabouço conceitual e instrumental para a representação de redes (ecológicas, sociais, neuronais, computacionais) em sistemas complexos.

(Cabe frisar que nossa utilização do termo não implica, entretanto, numa adesão integral e acrítica aos conceitos e proposições filosóficas do pós-modernismo/pós-estruturalismo).

Para nós, da Rizoma Editorial, o modelo rizomático tem ainda um apelo adicional: por sua origem botânica, o termo enfatiza e reforça nosso compromisso com as questões ambientais e a causa da ecologia social.

Um rizoma não começa, nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo “ser”, mas o rizoma tem como tecido a conjunção “e… e… e…” Há nessa conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser.Giles Deleuze & Félix Guattari, Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 1. São Paulo: Editora 34, 1995, p. 37.

Seja bem-vindo(a) ao espaço multidimensional da Rizoma Editorial!

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